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Venda generalizada apaga quase US$ 1 trilhão do setor de software em meio a temores sobre IA

O mercado global de software atravessa um dos períodos mais turbulentos dos últimos anos. Em apenas seis pregões, empresas de software e serviços perderam cerca de US$ 830 bilhões em valor de mercado, em um movimento que levou investidores a reavaliar se a inteligência artificial (IA) representa apenas mais uma onda tecnológica ou uma ameaça estrutural aos modelos de negócio do setor.

O gatilho mais recente foi o anúncio de uma nova ferramenta jurídica baseada no modelo de linguagem Claude, da Anthropic, que ampliou a percepção de que os grandes modelos de IA estão avançando rapidamente sobre a chamada “camada de aplicações”, justamente onde muitas empresas de software constroem receitas recorrentes e margens elevadas.

Na terça-feira (3/2), o índice S&P 500 de software e serviços registrou queda próxima de 4%. No pregão seguinte, recuou mais 0,73%, marcando a sexta sessão consecutiva de perdas. Desde o fim de janeiro, o índice já acumula retração de cerca de 13% e está 26% abaixo do pico registrado em outubro, em um movimento que alguns analistas classificam como o mais severo desde o aperto monetário de 2022.

A venda de ações reflete uma mudança de percepção. Durante boa parte de 2024 e 2025, a IA foi vista como um catalisador positivo para empresas de software, ao prometer ganhos de produtividade e novas fontes de receita. Agora, o debate se desloca para o risco de disrupção: modelos de linguagem de grande escala começam a executar tarefas que antes justificavam a existência de softwares especializados em áreas como jurídico, finanças, marketing, análise de dados e programação.

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Resgate histórico

A estratégia adotada por empresas de IA lembra, para alguns investidores, o caminho trilhado pela Amazon no início dos anos 2000. A companhia começou em um nicho específico, a venda on-line de livros, e, a partir dali, construiu um ecossistema que hoje abrange varejo, computação em nuvem e logística. O temor é que os grandes modelos de IA sigam trajetória semelhante, partindo de ferramentas genéricas para, gradualmente, ocupar espaços dominados por softwares corporativos consolidados.

De acordo com a Reuters, ainda assim, há divergências relevantes. Parte do mercado argumenta que os modelos de IA carecem de dados altamente especializados e de contexto profundo dos setores em que pretendem atuar, o que pode limitar sua capacidade de substituir sistemas críticos de empresas. Para esses analistas, o movimento recente reflete mais um ajuste defensivo de portfólios do que uma avaliação definitiva sobre o futuro do setor.

O impacto foi sentido de forma desigual entre as companhias. A Thomson Reuters, dona da base jurídica Westlaw, chegou a cair quase 16% em um único pregão, após acumular sete sessões consecutivas de perdas. Empresas como MSCI, Relx e a London Stock Exchange também registraram quedas expressivas, refletindo a sensibilidade de negócios baseados em dados e assinaturas ao avanço da automação por IA.

A turbulência extrapolou o setor de software. Gestoras de ativos alternativos, como Apollo, Blackstone, Carlyle e KKR, também sofreram quedas relevantes, diante da preocupação de que a fragilidade das empresas de software possa gerar problemas de crédito em portfólios mais expostos ao setor de tecnologia.

No mercado mais amplo, o movimento de aversão ao risco pressionou os principais índices acionários. O S&P 500 recuou, enquanto o Nasdaq apresentou queda ainda mais acentuada, refletindo o peso das empresas de tecnologia. Companhias diretamente associadas à cadeia de IA, como Nvidia, Meta, Alphabet e Oracle, também fecharam em baixa, apesar de continuarem no centro dos investimentos bilionários em infraestrutura de inteligência artificial.

Executivos do setor tentam conter a narrativa mais pessimista. O CEO da Nvidia, Jensen Huang, afirmou recentemente que a ideia de que a IA substituirá o software corporativo tradicional é equivocada, defendendo que as novas ferramentas tendem a complementar, e não eliminar, sistemas existentes. Analistas de bancos de investimento também apontam que extrapolar o impacto de um único lançamento de produto para todo o ecossistema de software pode ser precipitado.

Ainda assim, a volatilidade parece longe de terminar. A rápida evolução da IA dificulta projeções tradicionais de três a cinco anos, tornando mais complexa a tarefa de avaliar fluxos de caixa, vantagens competitivas e barreiras de entrada. Nesse cenário, investidores seguem divididos entre a visão de que o setor enfrenta uma disrupção profunda e a leitura de que o ajuste recente foi exagerado diante de fundamentos que permanecem sólidos em muitas empresas.

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