
Ainda hoje, a tecnologia é usada nas empresas principalmente como instrumento de eficiência. Planilhas, softwares e automação ajudaram a acelerar tarefas, mas a estrutura de decisão continua essencialmente humana. No SXSW 2026, em Austin, nos Estados Unidos, o futurista Neil Redding argumentou que esse modelo entra agora em declínio.
Segundo ele, a mudança não está apenas no avanço da inteligência artificial (IA), mas na velocidade com que ela passa a executar tarefas. Em muitas organizações, disse, a execução já ocorre mais rápido do que a capacidade de as empresas tomarem decisões.
“Algo quebrou recentemente nas empresas e não é a estratégia. É a velocidade”, afirmou. Redding descreve esse fenômeno como “clock drift”, deriva do relógio, em tradução livre, uma espécie de descompasso entre a rapidez com que sistemas baseados em IA conseguem agir e o ritmo mais lento dos processos corporativos tradicionais, ainda baseados em revisões, comitês e aprovações.
O resultado, segundo ele, é uma nova forma de frustração organizacional. Para o futurista, ideias podem ser construídas em poucas horas com inteligência artificial, mas levar semanas para serem aprovadas nas estruturas de governança das empresas.
Esse descompasso cria riscos estratégicos. “Quando a execução acontece mais rápido do que a tomada de decisão, outra organização pode executar sua estratégia antes mesmo de você aprová-la”, disse.
Para o futurista, a principal mudança em curso não é tecnológica, mas conceitual. Até pouco tempo, a inteligência artificial era tratada nas empresas como uma ferramenta, algo usado para executar tarefas específicas, como resumir documentos ou gerar relatórios. Esse modelo, segundo ele, está se transformando. “A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta para se tornar um participante”, alertou.
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A diferença, explica, está na capacidade crescente de raciocínio e colaboração com humanos. Em vez de simplesmente responder a comandos, sistemas mais recentes conseguem analisar informações, propor alternativas e participar do processo de tomada de decisão.
Redding ilustrou a mudança com dois tipos de interação com IA. No primeiro caso, o usuário pede que o sistema execute uma tarefa simples, como transformar dados em um slide. No segundo, a IA é convidada a participar do raciocínio estratégico, avaliando, por exemplo, argumentos a favor ou contra uma decisão de mercado.
No primeiro caso, a tecnologia atua como ferramenta. No segundo, como parceiro analítico. “Quando tratamos a IA como ferramenta, pedimos tarefas. Quando tratamos como participante, cocriamos resultados”, apontou.
Papel do contexto
Outro ponto central da apresentação foi o conceito de contexto compartilhado. Segundo o futurista, a eficácia da inteligência artificial nas empresas depende menos da tecnologia e mais da qualidade das informações disponíveis para os sistemas.
Modelos de IA estão cada vez mais capazes de processar grandes volumes de informação e trabalhar por períodos mais longos em tarefas complexas. Esse avanço permite que participem de projetos completos, e não apenas de etapas isoladas.
Mas para isso é necessário que tenham acesso ao que ele chama de contexto organizacional, dados sobre clientes, decisões estratégicas, histórico de projetos e conhecimento interno das empresas. “Esse contexto é o verdadeiro diferencial competitivo de um negócio”, afirmou.
Sem acesso a essas informações, agentes de IA podem tomar decisões incoerentes ou gerar respostas desalinhadas à estratégia corporativa. Com o contexto adequado, tornam-se capazes de colaborar com humanos de forma mais eficaz.
Redding chamou essa prática de “engenharia de contexto”, disciplina emergente que busca estruturar e organizar o conhecimento de uma empresa de forma acessível tanto para pessoas quanto para sistemas de inteligência artificial.
Novo modelo de liderança
Se a inteligência artificial passa a atuar como participante nas organizações, o modelo tradicional de liderança também precisa mudar, refletiu ele. Segundo o futurista, ocupar uma cadeira estratégica em um ambiente em que humanos e sistemas inteligentes colaboram, exige um papel diferente do exercido pelos executivos nas últimas décadas.
Ele usa o termo orquestração para descrever essa nova função. A analogia, claramente, vem da música. Em uma orquestra, o maestro não executa cada nota nem controla cada instrumento individualmente. Seu papel é coordenar o conjunto, ajustar o ritmo e garantir que todos os participantes produzam um resultado harmonioso.
Nas empresas do futuro, argumenta Redding, líderes terão função semelhante. “Liderança passa a ser a orquestração das dinâmicas entre participantes”, pontuou. “Humanos, inteligências artificiais e agentes automatizados estarão trabalhando juntos no mesmo sistema.”
Isso significa monitorar continuamente as capacidades dos diferentes participantes, pessoas e sistemas, e ajustar responsabilidades conforme essas capacidades evoluem.
Em um exemplo apresentado no palco por ele, um agente de inteligência artificial que recebe atualização de modelo pode assumir tarefas antes realizadas por um analista humano, enquanto esse profissional passa a desempenhar um papel de supervisão ou decisão estratégica.
Desafio organizacional
Apesar do entusiasmo com o potencial da tecnologia, Redding destacou que poucas empresas estão preparadas para essa transição. Segundo ele, 84% das organizações ainda não redesenharam um único cargo considerando as novas capacidades da inteligência artificial.
Isso indica que muitas companhias continuam tentando adaptar tecnologias emergentes a estruturas organizacionais antigas. Para o futurista, essa abordagem pode se tornar um risco competitivo. “O perigo não é apenas ficar lento. É otimizar um modelo de negócio que o futuro já não precisa”, provocou.
Em vez de focar apenas em eficiência operacional, ele sugere que empresas utilizem a inteligência artificial para ampliar sua capacidade de exploração, experimentando novos modelos de negócios e novas formas de criar valor.
Empresas como ecossistemas
Ao encerrar a apresentação, Redding comparou a evolução das organizações à dinâmica de ecossistemas naturais. Na natureza, redes subterrâneas de fungos. chamadas de micélio, conectam diferentes espécies de plantas e árvores, permitindo a troca de nutrientes e informações. Esse sistema funciona como uma espécie de rede de inteligência coletiva da floresta.
Para o futurista, empresas que integram humanos, inteligência artificial e automação podem evoluir para estruturas semelhantes. “Os negócios estão se tornando ecossistemas descentralizados”, afirmou.
Nesse ambiente, a liderança deixa de ser apenas um processo de controle e passa a ser uma atividade de coordenação contínua de diferentes capacidades, humanas e digitais. “Podemos escolher ignorar essas dinâmicas ou aprender a moldá-las”, concluiu. “Orquestrar essas relações é o novo papel da liderança.”
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