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Inteligência artificial como ponte da acessibilidade digital para pessoas surdas

Por Monica Lupatin

Por muitos anos, falar em inclusão digital para pessoas surdas significava reconhecer um abismo entre o avanço tecnológico e o real acesso à informação. A internet cresceu, as plataformas evoluíram, mas a comunicação continuou, em grande parte, inacessível; baseada em textos complexos, em conteúdos sonoros ou em vídeos sem tradução adequada para Libras. Hoje, observo um movimento diferente. A inteligência artificial (IA) começa, de fato, a reposicionar essa discussão e a transformar possibilidades em soluções mais concretas.

Acompanhando de perto a evolução tecnológica, é impossível ignorar o protagonismo que a IA assumiu nesse debate. Ferramentas capazes de traduzir automaticamente textos, áudios e vídeos para Libras já chegam a aplicativos, serviços digitais e canais de atendimento. Isso não apenas reduz barreiras históricas de comunicação, como também revela algo que considero essencial: as empresas passaram a entender a inclusão como parte da experiência do usuário, e não como um “apêndice social”.

Mas aqui entra um ponto que, para mim, precisa estar muito claro. A tecnologia é poderosa, transformadora e necessária. No entanto, quando falamos de inclusão, estamos falando de pessoas; e relações humanas não são substituíveis por algoritmos. Empatia, cuidado, escuta e sensibilidade não cabem em linhas de código. Um exemplo bastante concreto é a comunicação em Libras. Apesar dos avanços da IA, ainda não existe solução realmente eficaz que substitua a atuação de um intérprete humano. Nos contextos mais críticos, especialmente em atendimentos, tomada de decisão ou situações sensíveis, a mediação humana continua sendo fundamental para garantir respeito, precisão e segurança na comunicação.

O mundo caminha para um mercado de IA que pode ultrapassar US$ 1 trilhão até 2030. As tecnologias assistivas crescem acima de 20% ao ano. E, no Brasil, estamos falando de um país com mais de 10 milhões de pessoas com algum grau de deficiência auditiva, segundo o IBGE. Não há como ignorar esse cenário, nem do ponto de vista social, nem do ponto de vista econômico.

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Sob a ótica dos negócios, a mensagem é direta: acessibilidade não é custo, é estratégia. Soluções baseadas em IA que ampliam a comunicação não apenas fortalecem inclusão, como ampliam alcance, melhoram eficiência, aumentam engajamento e consolidam reputação. Empresas que ignoram esse movimento deixam de atender um público relevante e deixam também de acompanhar um mercado que se torna, a cada dia, mais consciente.

Por outro lado, a responsabilidade é grande. Implementar IA em tradução para Libras não é simplesmente “instalar uma tecnologia”. Requer investimento contínuo, testes reais e, principalmente, participação ativa da comunidade surda. Sem essa escuta, corre-se o risco de criar ferramentas tecnicamente avançadas, mas socialmente insuficientes.

Como diretora de novos negócios, vejo a Inteligência Artificial como uma ponte concreta entre inovação, impacto social e crescimento sustentável. Ela aproxima pessoas surdas do universo digital, abre caminhos e democratiza o acesso. Mas acredito, com igual convicção, que tecnologia não substitui a humanidade. Inclusão não é sobre máquinas funcionando; é sobre pessoas sendo vistas, respeitadas e incluídas.

Mais do que seguir uma tendência, investir em acessibilidade é decidir qual papel as empresas querem ocupar em um mercado que, cada vez mais, exige responsabilidade, consciência e humanização. E, na minha visão, esse é o único caminho possível para quem deseja ser relevante no futuro.

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