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Gastos com nuvem soberana na Europa devem triplicar até 2027, aponta Gartner

O investimento europeu em serviços de nuvem soberana deve mais do que triplicar entre 2025 e 2027, impulsionado por tensões geopolíticas, preocupações regulatórias e pelo debate sobre soberania digital. A projeção é do Gartner, que aponta a Europa como uma das regiões que mais rapidamente ampliará os aportes nesse tipo de infraestrutura.

De acordo com a consultoria, e segundo informações do The Register, o gasto global com nuvem soberana deve alcançar US$ 80 bilhões em 2026, um crescimento de 35,6% em relação a 2025. Embora Oriente Médio, África e Ásia-Pacífico apresentem taxas percentuais ainda mais altas, a Europa se destaca pelo volume absoluto: parte de uma base muito superior, estimada em US$ 6,9 bilhões em 2025, contra US$ 851 milhões da região Ásia-Pacífico madura.

O avanço europeu está diretamente relacionado à preocupação com a dependência de provedores estrangeiros, sobretudo dos Estados Unidos. Um dos pontos centrais desse debate é o Cloud Act, legislação norte-americana de 2018 que permite às autoridades dos EUA requisitarem dados de empresas americanas, mesmo que as informações estejam armazenadas fora do país.

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A incerteza aumentou com o agravamento das tensões comerciais e políticas entre Europa e Estados Unidos, especialmente após a volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Executivos europeus passaram a questionar se, em um cenário extremo, empresas de tecnologia americanas poderiam ser obrigadas a suspender serviços a determinados clientes ou instituições.

Restrição de acesso

Um episódio que reforçou esse receio envolveu o Tribunal Penal Internacional. Após sanções impostas pelos EUA ao promotor-chefe International Criminal Court, Karim Khan, o órgão teve temporariamente restringido o acesso a serviços da Microsoft. Embora a empresa tenha afirmado que não interrompeu serviços à instituição como um todo, o caso gerou questionamentos e levou o tribunal a adotar o OpenDesk, uma suíte colaborativa de código aberto desenvolvida pelo Centro Alemão para a Soberania Digital (ZenDiS).

Segundo René Buest, diretor sênior e analista da Gartner, a geopolítica passou a influenciar diretamente as decisões de infraestrutura digital desde o início de 2025. Para ele, a incerteza dificulta o planejamento de longo prazo e leva não apenas CIOs, mas todo o C-Level, a reavaliar o grau de dependência de provedores baseados nos EUA.

Esse movimento também está ligado a uma agenda mais ampla de soberania estratégica e econômica. Na avaliação do Gartner, tornar provedores locais e regionais mais competitivos passa, necessariamente, por direcionar investimentos a essas empresas. Exemplos incluem o aporte de € 11 bilhões da Schwarz Gruppe, dona do Lidl, em sua plataforma de nuvem STACKIT, além dos investimentos realizados pela francesa OVHcloud. Ainda assim, a capacidade total desses players segue muito abaixo da dos hyperscalers americanos.

Executivos de grandes grupos industriais europeus reconhecem o desafio. Em entrevista anterior ao The Register, Catherine Jestin, vice-presidente executiva digital da Airbus, destacou que parcerias entre empresas europeias e norte-americanas, como Google com Thales e T-Systems, ou Microsoft com Orange e Capgemini, podem ajudar a desenvolver competências locais. A executiva comparou a estratégia ao processo de aprendizado industrial europeu no pós-guerra, quando a cooperação com empresas dos EUA permitiu a criação de uma indústria própria.

Na prática, porém, o movimento europeu não envolve, por enquanto, uma migração em massa para fora das nuvens americanas. De acordo com Buest, as empresas tendem a direcionar novos workloads e aplicações futuras para provedores soberanos locais, enquanto mantêm sistemas legados e ambientes altamente integrados nos hyperscalers já utilizados.

Enquanto isso, provedores dos EUA seguem anunciando ofertas voltadas à soberania europeia. A Microsoft ampliou o conceito de “EU Data Boundary”, a Amazon Web Services (AWS) lançou sua European Sovereign Cloud, e empresas como Google e Oracle também reforçaram estruturas dedicadas ao continente. Para o Gartner, apesar desses avanços técnicos, persistem dependências organizacionais e de governança que mantêm o debate sobre soberania em aberto.

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