
Por Eduardo Peixoto
A expansão da inteligência artificial generativa elevou de forma significativa a demanda por capacidade computacional. Empresas globais de tecnologia têm anunciado investimentos de grande escala em infraestrutura, enquanto regiões tradicionalmente concentradoras de data centers — como Estados Unidos e Europa — enfrentam limitações físicas relacionadas à disponibilidade de espaço, oferta energética e uso intensivo de água.
Nesse contexto, o debate sobre data centers no Brasil não se limita à atração de investimentos. Trata-se de uma questão estrutural ligada à autonomia tecnológica. A dependência quase total de processamento fora do país cria vulnerabilidades econômicas e operacionais, além de concentrar riscos em regiões sujeitas a instabilidades geopolíticas. A existência de capacidade de processamento distribuída em território nacional reduz essas fragilidades.
Do ponto de vista geográfico e energético, os estados do Nordeste apresentam vantagens concretas. Diferentemente de estados onde a expansão depende de obras futuras, o Nordeste dispõe de base logística relevante e disponibilidade energética na região de Suape, com condições para receber investimentos intensivos em infraestrutura.
No horizonte de longo prazo, a possível implantação da Central Nuclear de Itacuruba, também em Pernambuco, é frequentemente citada como um vetor adicional para ampliar a oferta estável de energia. A geração nuclear, quando existente, tende a oferecer fornecimento contínuo e previsível, característica relevante para operações de hiperescala. A localização às margens do Rio São Francisco também dialoga com requisitos de disponibilidade hídrica para sistemas de refrigeração — um fator cada vez mais restritivo em outras regiões do mundo.
Embora o Brasil tenha iniciado tardiamente essa discussão, o ambiente econômico recente introduziu novos elementos. O ReData, se aprovado, reduzirá de forma significativa o custo de implantação de infraestrutura ao isentar tributos federais sobre equipamentos de TIC. No Nordeste, o desenho do regime é ainda mais favorável, ao flexibilizar exigências de conteúdo local e investimentos obrigatórios em P&D, quando comparado a outras regiões do país. A isso se somam linhas de financiamento voltadas à inovação, como os recursos da Finep Nordeste, que podem reduzir riscos iniciais.
Conectividade e operação: os entraves que destravam ou travam o projeto
Apesar da combinação de energia, água e incentivos, projetos de data centers de IA ainda não avançaram no estado. As razões centrais estão na conectividade, nos estados que dispõem de energia e de energia, nos estados que dispõem de conectividade, e em todos eles, na burocracia associada à operação.
Aqui, a comparação entre Pernambuco e Ceará é inevitável. Fortaleza consolidou-se como um dos principais pontos de aterrissagem de cabos submarinos no Brasil e na América Latina, com múltiplos sistemas internacionais conectando o país à América do Norte, Europa e África. Essa densidade de cabos cria redundância, competição entre operadoras e um ecossistema de conectividade mais maduro, reduzindo risco e custo para operações voltadas a clientes globais.
Pernambuco, por outro lado, não dispõe do mesmo nível de infraestrutura neutra para operadoras no litoral. Potencial geográfico não se traduz automaticamente em conectividade disponível. Sem estações de aterrissagem independentes e backbone regional robusto, o estado permanece dependente de rotas externas, o que limita a atratividade para projetos de hiperescala.
Há também um componente operacional que depõe contra ambos os estados. Ambientes de IA exigem reposição rápida de hardware especializado. Prazos alfandegários incompatíveis com essa dinâmica aumentam risco e custo. Regimes aduaneiros diferenciados, já utilizados em outros setores industriais, poderiam ser adaptados para dar previsibilidade e agilidade à operação.
Um gargalo pouco discutido: capital humano!
Mesmo que energia e conectividade avancem, existe um terceiro limitador que não se resolve por decreto: capital humano. O conhecimento necessário para projetar, construir, manter e operar data centers de grande porte — especialmente os voltados a IA, com alta densidade energética — não existe hoje, de forma madura e disseminada, em nenhum estado do Brasil.
Esse déficit envolve engenharia elétrica e mecânica especializada, automação e monitoramento, redes de baixa latência, operação contínua, segurança física e cibernética e gestão de ativos críticos. Sem uma agenda estruturada de formação técnica, certificação e transferência de conhecimento, a dependência de equipes externas tende a elevar custos, alongar cronogramas e fragilizar a sustentabilidade operacional dos projetos.
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Sustentabilidade e reação social: o que aprendemos com Virgínia e Geórgia
Nos Estados Unidos, regiões como Virgínia e Geórgia passaram a registrar movimentos organizados contrários à expansão de data centers. As razões são conhecidas: pressão sobre redes elétricas locais, consumo intensivo de água em regiões sujeitas a estresse hídrico, uso de energia baseada em combustíveis fósseis, impactos no uso do solo e percepção de baixo retorno social direto para comunidades locais.
Essas reações não são ideológicas, mas resultado de externalidades acumuladas em territórios onde a densidade de data centers cresceu mais rápido que a capacidade de planejamento urbano, energético e ambiental.
O Nordeste, e o Brasil de forma geral, não estão imunes a esses riscos. No entanto, o contexto estrutural é diferente, o que torna a região mais resiliente a alguns dos fatores que detonaram a reação nos EUA. Há três diferenças centrais:
- Matriz energética
Nos EUA, muitos data centers são alimentados por redes fortemente dependentes de gás natural e carvão. No Brasil, a matriz elétrica é majoritariamente renovável, o que reduz a pegada de carbono marginal de novos projetos, especialmente quando combinada com geração dedicada ou contratos de longo prazo. - Disponibilidade hídrica relativa
As tensões mais agudas nos EUA surgem em regiões áridas ou semiáridas, como Arizona e partes da Virgínia. Pernambuco, apesar de suas desigualdades regionais, dispõe de infraestrutura hídrica estruturante na bacia do São Francisco, o que permite planejamento mais seguro para sistemas de refrigeração — desde que critérios técnicos e ambientais sejam respeitados. - Momento do ciclo
Diferentemente da Virgínia, que chegou à saturação, Pernambuco ainda está no início da curva. Isso permite incorporar desde já requisitos de eficiência energética, reuso de água, refrigeração avançada e integração urbana, evitando decisões reativas no futuro.
Isso não elimina riscos, mas muda a natureza do problema. O desafio no Brasil não é conter excessos, mas evitar reproduzir modelos sem adaptação local. Sustentabilidade, nesse contexto, não é um argumento de marketing, mas uma condição operacional e social para a viabilidade de longo prazo.
Coordenação como condição necessária
A discussão sobre data centers de IA no Nordeste não é um debate regional, é uma decisão sobre a inserção do Brasil na economia da inteligência artificial. A região reúne ativos energéticos, localização geográfica privilegiada e espaço para planejamento sustentável antes da saturação que já se observa em outros polos globais. O que falta não é potencial, mas coordenação.
Sem uma estratégia integrada entre estados, União e setor privado para resolver conectividade internacional, capital humano e ambiente regulatório, o Nordeste continuará como destino potencial, enquanto importa processamento. Em um mundo no qual capacidade computacional se converte em poder econômico, a pergunta não é se o
Nordeste pode participar, mas se o país pode se dar ao luxo de deixá-lo de fora dessa equação.
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