
Quando a bola rolar na Copa do Mundo de 2026, que começa no dia 11 de junho, cada movimento em campo será transformado em dado. A posição exata de um jogador, o ângulo de um passe ou a velocidade de um sprint poderão ser analisados com precisão centimétrica, muitas vezes em tempo real.
Por trás dessa engrenagem está uma infraestrutura massiva de inteligência artificial (IA), servidores de alta performance e sistemas de captura de dados que prometem transformar o torneio no mais tecnológico da história do futebol.
Parte central dessa arquitetura é construída neste momento pela Lenovo, que se tornou a primeira parceira oficial de tecnologia da Fifa. “Nosso objetivo é ser a espinha dorsal tecnológica da Fifa”, afirma Erick Pascoalato, gerente-geral da unidade Infrastructure Solutions Group (ISG) da Lenovo Brasil, em entrevista ao IT Forum.
Segundo ele, a edição de 2026 será um verdadeiro ponto de inflexão na digitalização do futebol. “Estamos trabalhando para que esta seja a Copa do Mundo mais tecnológica de todos os tempos”, crava.
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Tecnologia que está em jogo
Organizar um torneio que mobiliza bilhões de espectadores e milhões de dados exige uma arquitetura tecnológica que vai muito além das transmissões televisivas. É preciso estruturar uma base de tecnologia vencedora, a prova de falhas.
A estratégia da Lenovo para a Fifa, portanto, está estruturada em quatro pilares principais. O primeiro deles é a experiência do torcedor, dentro e fora dos estádios.
A ideia é permitir que fãs acessem, por meio de aplicativos e plataformas digitais, uma quantidade inédita de informações em tempo real, desde estatísticas detalhadas, passando por análise de jogadas, dados de desempenho dos jogadores até recursos interativos impulsionados por inteligência artificial.
“O torcedor quer cada vez mais contexto sobre o que está acontecendo em campo”, afirma Pascoalato. “A tecnologia permite democratizar essas informações e levar experiências mais ricas para diferentes públicos.”
O segundo pilar envolve a chamada inteligência operacional, voltada à segurança e à organização do torneio. Isso inclui análise de dados para gestão de fluxos de pessoas, operações nos estádios e suporte à logística do evento, uma estrutura que precisa funcionar de forma sincronizada em múltiplos países e arenas.
O terceiro eixo está ligado diretamente à infraestrutura tecnológica do torneio, que inclui servidores, dispositivos móveis, tablets, notebooks e serviços de nuvem que suportam a operação da Fifa.
Já o quarto pilar conecta todos esses elementos sob o conceito que a Lenovo chama de “Smarter AI for All”, o uso de inteligência artificial para ampliar acesso à informação e melhorar a experiência de todos os envolvidos no evento.
“A Copa do Mundo é um evento global que atravessa todas as camadas sociais”, diz Pascoalato. “Precisamos garantir que as experiências e as informações cheguem de forma ampla e democrática”, reforça.
Avatares 3D e análise centimétrica
Entre as inovações mais ambiciosas previstas para o torneio está o uso de avatares digitais tridimensionais dos jogadores, criados a partir da captura massiva de dados durante as partidas. A tecnologia permitirá reproduzir digitalmente cada atleta em campo com precisão centimétrica.
De acordo com o executivo, esses avatares poderão ser utilizados para analisar movimentos, ângulos de jogadas e decisões críticas, inclusive em integração com o sistema de arbitragem assistida por vídeo (VAR).
“Vamos criar representações digitais dos jogadores para análises extremamente precisas”, reforça Pascoalato. “Isso permite avaliar ângulos, posicionamento e dinâmica das jogadas de uma forma que não era possível antes.”
Para suportar esse nível de análise, a infraestrutura inclui servidores de inteligência artificial, computação de alto desempenho (HPC) e sistemas avançados de resfriamento líquido, tecnologia também utilizada pela Lenovo em ambientes de corrida, como a Fórmula 1.
A analogia com o automobilismo não é por acaso. “Na Fórmula 1 usamos tecnologia para medir desempenho em tempo real. No futebol, trazemos conceitos semelhantes de análise de dados e engenharia”, afirma o executivo.
Data center do futebol
Grande parte do processamento desses dados será concentrada em uma infraestrutura instalada na sede da Fifa. Ali estará o coração computacional do torneio.
Segundo Pascoalato, a arquitetura inclui um ambiente com cerca de 10 mil metros quadrados dedicados à infraestrutura tecnológica, com servidores de IA e plataformas de processamento de dados capazes de lidar com volumes sem precedentes.
A partir desse centro de operações, as informações serão distribuídas para estádios, centros de mídia e plataformas digitais. Nos estádios, sistemas locais também garantirão baixa latência e suporte às experiências premium.
Áreas consideradas “Very VIP” terão tablets, dispositivos móveis personalizados e sistemas de análise em tempo real para convidados e executivos. Tudo conectado a uma arquitetura híbrida de infraestrutura de IA. “O maior desafio é gerenciar uma escala de dados que nunca vimos antes em eventos esportivos”, assinala Pascoalato.
IA conquista o esporte
A aposta da Fifa na tecnologia está em linha com uma tendência mais ampla no setor esportivo. Segundo o Global Sports Technology Report, citado pelo executivo, mais de 80% das organizações esportivas já utilizam inteligência artificial em suas operações. A tecnologia, portanto, deixou de ser vista como experimento e passou a integrar decisões estratégicas.
Entre os executivos entrevistados no estudo, cerca de 160 líderes do setor em diferentes regiões do mundo, 60% afirmaram que plataformas digitais abriram novas oportunidades de receita direta para clubes e ligas esportivas.
Grande parte dessas oportunidades surge da coleta e análise de dados. No futebol, essa lógica remete ao conceito popularizado pelo filme Moneyball, lembra o executivo, no qual estatísticas avançadas passam a orientar decisões esportivas. “O esporte está cada vez mais orientado por dados”, diz Pascoalato. “A tecnologia permite transformar estatísticas em inteligência competitiva.”
Cibersegurança na linha de frente
Com centenas de milhões de pessoas acessando plataformas digitais durante o torneio, a cibersegurança se tornou uma das principais preocupações do projeto.
A Lenovo afirma que toda a infraestrutura foi desenhada com múltiplas camadas de proteção desde dispositivos até servidores. “Quando falamos de um evento com potencial de mais de 180 milhões de acessos simultâneos, sabemos que haverá tentativas de invasão”, afirma Pascoalato.
A estratégia envolve sistemas de proteção em diferentes níveis, incluindo firmware, BIOS e camadas adicionais de segurança nos dispositivos. “A segurança começa no equipamento e segue até a infraestrutura central”, explica.
Legado tecnológico do futebol
Embora a Copa de 2026 seja o primeiro grande teste dessa infraestrutura, a parceria entre Lenovo e FIFA também se estende para a Copa do Mundo Feminina de 2027, no Brasil.
Para Pascoalato, o objetivo vai além da operação de um evento. A ambição é deixar um legado tecnológico para o esporte. “Queremos impulsionar o uso de inteligência artificial no futebol”, afirma. “Se conseguirmos entregar uma experiência melhor para jogadores, árbitros e torcedores, teremos cumprido nossa missão”, finaliza.
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*Esta reportagem integra uma série especial que acompanha como a Copa do Mundo 2026 ultrapassa os gramados e redefine modelos de gestão, tecnologia e negócios.
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