
A Alphabet, controladora do Google, indicou que seus investimentos em capital podem praticamente dobrar em 2026, marcando um dos movimentos mais agressivos já realizados pelo grupo para ampliar capacidade computacional e sustentar sua estratégia em inteligência artificial (IA). A projeção coloca o capex anual entre US$ 175 bilhões e US$ 185 bilhões, bem acima dos US$ 91,4 bilhões registrados em 2025 e das estimativas de mercado, que giravam em torno de US$ 115 bilhões.
De acordo com informações da Reuters, o aumento ocorre em um momento em que as grandes empresas de tecnologia intensificam aportes para garantir infraestrutura suficiente para treinar e operar modelos avançados de IA.
Juntas, Alphabet, Microsoft, Meta e outras gigantes devem investir mais de US$ 500 bilhões em inteligência artificial ao longo deste ano, segundo projeções do setor. A Meta, por exemplo, anunciou recentemente uma elevação de 73% nos investimentos voltados a IA, enquanto a Microsoft reportou níveis recordes de gastos em capital no último trimestre.
Apesar da preocupação de investidores sobre o retorno desses aportes, a Alphabet tem apresentado sinais consistentes de tração. Desde o início de 2025, as ações da companhia acumulam alta de cerca de 76%, impulsionadas por resultados acima do esperado e pela percepção de que os investimentos em IA começam a se traduzir em crescimento de receita.
Segundo a empresa, a maior parte do capex previsto será direcionada à ampliação da capacidade de computação, com foco em servidores, data centers e equipamentos de rede. A expansão busca aliviar gargalos que ainda limitam o ritmo de crescimento, especialmente no negócio de nuvem. Executivos reconhecem que, mesmo com o aumento acelerado de capacidade, restrições de oferta devem persistir ao longo de 2026.
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Destaque para o Google Cloud
O Google Cloud foi um dos principais destaques do último balanço. No quarto trimestre encerrado em dezembro, a divisão registrou crescimento de 48% na receita, alcançando US$ 17,7 bilhões, o ritmo mais rápido em mais de quatro anos. O desempenho superou expectativas de analistas e, pela primeira vez em vários anos, ficou acima da taxa de crescimento reportada pelo Azure, da Microsoft.
Analistas veem esse resultado como um ponto de inflexão. O avanço da nuvem ajuda a justificar o aumento expressivo dos investimentos e reforça a posição do Google como um hyperscaler de peso, ao lado de Amazon e Microsoft. O crescimento acelerado, combinado com margens em expansão, reduz a pressão por provas adicionais de viabilidade econômica do negócio.
No campo de produtos, a trajetória recente da IA do Google também contribuiu para a mudança de narrativa. O lançamento do modelo Gemini 3, no fim de 2025, foi apontado por executivos como um marco para reposicionar a companhia na corrida da IA. A versão corporativa do Gemini já soma cerca de 8 milhões de licenças pagas, distribuídas entre aproximadamente 2.800 empresas.
Além disso, a base de usuários do assistente Gemini segue em expansão. O aplicativo ultrapassou a marca de 750 milhões de usuários mensais, com crescimento significativo desde novembro. No mecanismo de busca, o uso do modo de IA, que funciona de forma semelhante a um chatbot integrado às pesquisas, também avançou rapidamente, com o volume diário de consultas dobrando desde o lançamento.
Esse avanço começa a impactar outras frentes do negócio. A área de publicidade tem se beneficiado do uso de IA para lidar com buscas mais longas e complexas, que antes eram difíceis de monetizar. A tecnologia passou a apoiar a entrega de anúncios mais relevantes nesses contextos, ampliando o potencial de receita do principal negócio da companhia.
No consolidado, a Alphabet reportou receita trimestral de US$ 113,8 bilhões, acima das estimativas do mercado, e lucro ajustado por ação também superior ao esperado. Embora as ações tenham apresentado volatilidade após a divulgação dos resultados, o desempenho operacional reforçou a percepção de que os investimentos em infraestrutura e IA começam a gerar retorno concreto.