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Amy Webb decreta fim de seu relatório anual e alerta para três tempestades que já começam a se formar

O salão estava decorado com flores. Todos vestiam preto. Na plateia, o clima era de velório. Quando a apresentadora do SXSW 2026 chamou a futurista Amy Webb ao palco do evento, pediu um momento de silêncio. Logo ficou claro que aquilo não era apenas uma encenação. Era um recado.

O sinal já estava ali. “Estamos reunidos hoje para celebrar e lembrar a vida do Trend Report”, disse Amy, CEO da Future Today Strategy Group e professora de Strategic Foresight na NYU Stern.

Durante quase duas décadas, o relatório anual apresentado por ela no SXSW se tornou uma referência global para executivos, pesquisadores e formuladores de políticas públicas interessados em entender o impacto das tecnologias emergentes. O documento nasceu em 2008, foi publicado gratuitamente e chegou a reunir centenas de slides baseados em análises de dados e sinais tecnológicos.

Mas, segundo ela, esse formato deixou de fazer sentido. “O mundo está mudando rápido demais. Um PDF estático de tendências fica obsoleto imediatamente”, afirmou sabiamente.

No lugar do relatório tradicional, Amy anunciou o lançamento do seu novo modelo análise: o Convergence Outlook, metodologia que busca identificar o que ela chama de “tempestades tecnológicas”, momentos em que múltiplas tendências se encontram e produzem mudanças profundas na economia, nos negócios e na sociedade.

“Se o antigo relatório ajudava a ver o que estava vindo, o Convergence Outlook foi criado para ajudar a decidir o que fazer a seguir”, explicou. A metáfora central da apresentação foi meteorológica. Tendências isoladas seriam como dados climáticos, temperatura ou pressão atmosférica. Já as convergências seriam o equivalente a um sistema de tempestade, capaz de transformar completamente o ambiente.

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E, segundo Amy, três dessas tempestades já estão se formando. Acompanhe a seguir.

Tempestade 1: a era da amplificação humana

A primeira convergência apontada por Amy envolve aquilo que ela chamou de “human augmentation”, amplificação humana em tradução livre, o uso combinado de tecnologia e biologia para ampliar capacidades físicas e cognitivas humanas além dos limites naturais.

Segundo ela, esse processo não é novo. Ao longo da história, humanos sempre buscaram formas de melhorar o próprio desempenho, de lentes corretivas a vacinas. “Os humanos nunca ficaram satisfeitos com suas configurações de fábrica”, afirmou. O que muda agora é a escala e a velocidade, sintetizou.

Entre os exemplos apresentados por ela estão exoesqueletos leves que ajudam pessoas a caminhar ou escalar por mais tempo; calçados assistidos por motores que ampliam a performance de corrida; colchões inteligentes com IA que monitoram dados do sono e otimizam descanso; interfaces cérebro-computador capazes de controlar dispositivos com o pensamento’óculos inteligentes com realidade aumentada, capazes de traduzir idiomas ou fornecer informações em tempo real

Segundo Amy, que é entusiasta de tecnologias para o esporte, essas tecnologias já começam a criar um tipo de desigualdade. Ela exemplificou com três melhorias hipotéticas que qualquer pessoa poderia adotar hoje: um exoesqueleto, um sistema avançado de monitoramento de sono e óculos inteligentes.

A combinação dessas ferramentas poderia tornar alguém 2,2 vezes mais produtivo do que a média, disse. “Eu, Amy, sou 2,2 vezes mais produtiva do que vocês”, provou.

Isso levanta uma série de dilemas. Empresas poderiam exigir dispositivos de amplificação para determinadas funções? Profissionais que não puderem pagar por essas tecnologias ficarão para trás? “Seu corpo está se tornando uma plataforma”, assinalou ela.

Tempestade 2: o surgimento do trabalho ilimitado

A segunda convergência apresentada pela futurista foi chamada de “unlimited labor”, o trabalho ilimitado, um mundo em que sistemas automatizados podem produzir trabalho em escala praticamente infinita.

Segundo Amy, a automação sempre existiu, da roda à linha de montagem. A diferença agora é que inteligência artificial (IA), robótica e sistemas autônomos estão convergindo ao mesmo tempo. Ela destacou três pilares dessa nova realidade.

  1. Sistemas agênticos

Agentes de IA capazes de executar tarefas complexas sem intervenção humana. Esses sistemas já estão escrevendo código, produzindo conteúdo e conduzindo interações com consumidores.

Um exemplo citado foi o de um influenciador chinês que utilizou versões em IA de si mesmo para fazer transmissões de vendas ao vivo durante seis horas. O resultado: US$ 7,6 milhões em vendas.

  1. Robótica autônoma

Robôs já estão assumindo atividades em múltiplos ambientes, de carros autônomos nas ruas, passando por drones de inspeção industrial, robôs humanoides em fábricas, até chegar a sistemas automatizados em armazéns logísticos. Em algumas operações, essas máquinas já superam humanos em velocidade e escala.

  1. Fábricas sem pessoas

O terceiro estágio envolve o chamado “lights-out industrialism”, fábricas projetadas desde o início para operar sem trabalhadores. Sim, além de não terem luz, são completamente automatizadas por robôs. Nesses ambientes, robôs executam tarefas físicas, enquanto IA gerencia planejamento, logística e produção.

O resultado, segundo ela, é um cenário inédito. “Pela primeira vez na história podemos ter escala sem população, produção sem pessoas e crescimento sem salários.”

Tempestade 3: a terceirização das emoções

A terceira convergência identificada por Amy é talvez a mais inesperada. Ela chamou esse fenômeno de “emotional outsourcing, a transferência de funções emocionais humanas para máquinas.

Historicamente, pessoas sempre compartilharam angústias e dúvidas com outras pessoas: familiares, amigos, líderes religiosos ou terapeutas. Agora, cada vez mais indivíduos estão fazendo isso com sistemas de IA.

Segundo Webb, isso já ocorre em quatro áreas principais amizade (chatbots e personagens virtuais); relacionamentos românticos (AI girlfriends e companions); terapia (uso de LLMs para apoio emocional) e religião (aplicativos que simulam conversas espirituais). “Já é possível enviar mensagem à Jesus”, disse, arrancado risos da plateia.

Estudos recentes indicam que entre 25% e 50% dos norte-americanos já recorreram a sistemas de IA para apoio emocional, disse a futurista. O problema, segundo ela, é que esses sistemas são projetados para manter engajamento. “Primeiro a substituição acontece. Depois vem a dependência. E, por fim, o controle”, sentenciou.

Isso pode levar a um cenário em que plataformas tecnológicas passam a intermediar não apenas informação ou trabalho, mas as próprias emoções humanas.

Dois futuros possíveis

Ao final da apresentação, Amy apresentou dois cenários para a próxima década. No primeiro, as três tempestades se combinam em um modelo que ela chamou de “capitalismo em estágio final”: empregos automatizados, pessoas dependentes de dispositivos de amplificação e plataformas que monetizam emoções.

No segundo cenário, governos e empresas criariam estruturas econômicas, como sistemas que remunerem contribuições sociais invisíveis, como cuidado, mentoria e trabalho comunitário.

Segundo Amy, o ponto central não é prever o futuro com precisão absoluta. É agir antes que as convergências se tornem inevitáveis. “Tempestades estão chegando”, disse. “Você pode ignorar o céu ficando verde ou pode começar a se preparar agora.” Para líderes empresariais, ela deixou um recado. Para ela, estratégia baseada apenas em tendências já não é suficiente. É preciso, portanto, entender como elas se combinam e quais novas realidades surgem dessa colisão.

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