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Nova fronteira da saúde está nas relações humanas, defende especialista em saúde social Kasley Killam

Em meio aos debates sobre inteligência artificial (IA), inovação e transformação digital que marcam a 40ª edição do SXSW, em Austin, nos Estados Unidos, uma discussão ganhou destaque por tratar de algo essencialmente humano: a conexão entre pessoas.

No palco do festival nesta quinta-feira (12), a especialista em saúde social Kasley Killam, autora do livro “A arte e a ciência da conexão humana”, defendeu que a sociedade precisa ampliar a forma como entende o conceito de saúde. Para ela, além da saúde física e mental, existe um terceiro pilar fundamental, a saúde social.

“Milhares de estudos mostram que as conexões humanas impactam diretamente nossa longevidade, nosso sistema imunológico e até nosso funcionamento cognitivo”, afirmou.

Segundo Kasley, a saúde social pode ser entendida como a dimensão do bem-estar relacionada à qualidade das relações humanas, desde vínculos próximos com família e amigos até a sensação de pertencimento a comunidades.

“Se pensarmos na saúde como um templo, o corpo representa a saúde física, a mente representa a saúde mental e as relações representam a saúde social. Se um desses pilares enfraquece, toda a estrutura pode colapsar”, refletiu.

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Solidão como risco global

Parte da urgência do tema está nos dados apresentados por ela. Estudos citados pela especialista indicam que a falta de conexões sociais já tem impacto direto na saúde pública global. Segundo estimativas da The Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD/OCDE) mencionadas na apresentação, solidão e falta de interação regular podem estar associadas a até 871 mil mortes prematuras por ano.

Pessoas com laços sociais frágeis também apresentam risco significativamente maior de mortalidade. “Indivíduos que têm pouco contato social ou vínculos familiares fracos podem ter até 53% mais risco de morrer por qualquer causa”, explicou a especialista. A pesquisa global mostra ainda que uma em cada seis pessoas no mundo relata sentir solidão, embora os níveis variem entre países e culturas.

Nova economia baseada em conexão

Além das implicações sociais e de saúde pública, o tema começa a ganhar relevância econômica. Relatórios recentes de tendências globais apontam que a chamada social health pode se tornar um dos motores da próxima fase da economia do bem-estar.

“Vemos o nascimento de um novo mercado. A próxima economia trilionária de bem-estar será construída em torno da conexão humana”, disse a especialista, citando projeções de relatórios internacionais.

Esse movimento pode impactar diversos setores, incluindo tecnologia, saúde e bem-estar, educação, urbanismo, hospitalidade e ambiente de trabalho.

Para Kasley, a saúde social está hoje em um estágio semelhante ao que a saúde mental ocupava há cerca de 15 anos, ainda emergente, mas caminhando rapidamente para o mainstream.

Trabalho conectado, empresas mais produtivas

No ambiente corporativo, os efeitos também são visíveis, sinalizou ela. Segundo pesquisas apresentadas pela especialista, profissionais que mantêm relações fortes com colegas de trabalho têm níveis significativamente maiores de engajamento.

“Funcionários conectados são até sete vezes mais propensos a se sentir engajados, produzem trabalhos de maior qualidade e têm menor probabilidade de deixar a empresa”, afirmou.

Por isso, ela defende que organizações passem a tratar o tema de forma estruturada. “Cada empresa deveria ter uma estratégia clara de saúde social para seus times, sejam eles presenciais, híbridos ou remotos.”

Tecnologia, IA e o paradoxo da conexão

A tecnologia aparece como elemento central nesse debate. Por um lado, novas plataformas e aplicativos estão sendo criados para facilitar conexões entre pessoas. Por outro, o avanço de sistemas de inteligência artificial traz novos dilemas.

Segundo dados citados por Kasley, 49% da geração Z afirmam já ter desenvolvido algum tipo de relação significativa com companheiros de IA, enquanto 37% dizem que poderiam se apaixonar por uma inteligência artificial.

Para ela, isso levanta uma questão importante para o futuro. “Empreendedores e investidores precisam se perguntar se estão criando ferramentas que fortalecem as conexões humanas ou que acabam substituindo essas conexões.”

A volta do “analógico”

Ao mesmo tempo, sinais de reação ao excesso de digital também começam a aparecer. Segundo a especialista, a própria geração Z já tem impulsionado uma tendência oposta: a busca por experiências presenciais.

“O ano de 2026 foi declarado por muitos jovens como o ‘ano do analógico’. Há uma busca crescente por encontros presenciais, comunidades locais e interações reais”, disse. Para ela, isso reforça que nada substitui a conexão humana presencial. “Receber dopamina de pessoas, e não de pixels.”

Um movimento que ainda está no início

Apesar do crescimento do interesse pelo tema, Kasley reconhece que a saúde social ainda não entrou completamente no radar da maioria das pessoas.

Buscas no Google sobre o conceito atingiram recordes recentes, e a Organização Mundial da Saúde passou a reconhecer formalmente a dimensão social como parte fundamental da saúde. Ainda assim, o conceito permanece em estágio inicial de difusão.

“Estamos próximos do ponto de virada. Aquilo que hoje é discutido por inovadores e primeiros adotantes pode se tornar parte central da forma como pensamos saúde, trabalho e sociedade nas próximas décadas”, reforçou.

Para a especialista, o desafio agora será garantir que esse novo campo se desenvolva com responsabilidade. “Se vamos construir uma nova economia em torno da conexão humana, precisamos fazer isso com evidência científica, ética e compaixão”, encerrou ela.

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