
O governo de Taiwan descartou a possibilidade de transferir uma fatia significativa de sua produção de semicondutores para os Estados Unidos, contrariando declarações recentes da administração americana. Em meio a um cenário de crescente disputa geopolítica e pressões por reindustrialização, autoridades taiwanesas reforçam que o ecossistema local de chips é estratégico, complexo e impossível de ser replicado fora do país em larga escala.
A posição foi reiterada pela vice-primeira-ministra Cheng Li-chiun, que classificou como irreal a meta de deslocar entre 40% e 50% da capacidade produtiva do setor para território americano. Segundo a dirigente, a indústria de semicondutores de Taiwan foi construída ao longo de décadas e envolve uma cadeia altamente integrada de fornecedores, talentos, infraestrutura e conhecimento acumulado. A avaliação foi divulgada inicialmente pelo site The Register, que acompanha de perto os desdobramentos da disputa global por chips.
A fala ocorre após negociações comerciais realizadas em janeiro, quando Taiwan conseguiu reduzir tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre seus produtos, de 20% para 15%. Em contrapartida, o acordo previa um aumento dos investimentos taiwaneses no setor tecnológico americano. Na ocasião, representantes do governo dos EUA chegaram a afirmar que o objetivo seria transferir cerca de 40% de toda a capacidade de fabricação de semicondutores de Taiwan para os Estados Unidos, apresentando o movimento como parte de uma estratégia de reindustrialização.
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Ecossistema que não se move
Para o governo taiwanês, no entanto, a lógica não se sustenta. O país responde hoje por mais de 60% da produção global de semicondutores e por aproximadamente 90% dos chips mais avançados do mundo. Essa liderança, segundo autoridades locais, não é fruto do acaso, mas de decisões estratégicas tomadas quando outras economias reduziram investimentos ou terceirizaram etapas críticas da cadeia.
A vice-primeira-ministra destacou que não se trata apenas de fábricas, mas de um ecossistema industrial completo, que inclui desde fornecedores especializados de equipamentos e materiais até centros de pesquisa, universidades e uma força de trabalho altamente qualificada. Replicar esse arranjo em outro país exigiria não apenas capital, mas tempo, coordenação e um alinhamento estrutural difícil de alcançar no curto prazo.
Esse argumento também é defendido por executivos históricos do setor. Pat Gelsinger, ex-CEO da Intel, já afirmou publicamente que economias como Taiwan, Coreia do Sul e China apostaram em políticas industriais de longo prazo para semicondutores, enquanto Estados Unidos e Europa deixaram o setor perder protagonismo ao longo dos anos.
Além da dimensão econômica, a indústria de chips ocupa um papel central na estratégia geopolítica de Taiwan. O país é reivindicado pela China, que considera a ilha parte de seu território e não descarta uma reunificação forçada. Nesse contexto, a dependência global dos semicondutores taiwaneses funciona como um fator de dissuasão, frequentemente chamado de “escudo de silício”.
Autoridades americanas já reconheceram esse efeito. A interrupção da produção taiwanesa teria impactos imediatos e profundos sobre a economia global, afetando cadeias inteiras de tecnologia, defesa, automotiva e inteligência artificial. Empresas como Nvidia, AMD e Qualcomm dependem fortemente de chips fabricados em Taiwan, principalmente por meio da TSMC, a maior fabricante de semicondutores sob contrato do mundo.
A própria TSMC chegou a avaliar, em 2024, a possibilidade de ampliar significativamente sua presença fora de Taiwan diante do aumento das tensões regionais. Após análises internas, a companhia concluiu que uma realocação em larga escala seria tecnicamente e operacionalmente inviável, decisão que reforçou a centralidade do país no mapa global dos semicondutores.
Ao reafirmar que sua indústria “não vai a lugar algum”, Taiwan sinaliza que continuará resistindo a pressões para uma redistribuição acelerada da produção de chips. O tema segue no centro das disputas entre segurança nacional, soberania tecnológica e dependência global, um debate que, como destacou novamente o The Register, deve se intensificar à medida que semicondutores se tornam ainda mais críticos para a economia digital e para a corrida da inteligência artificial.
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