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Barões do mundo tech entram na mídia para controlar narrativa

Chefes das maiores empresas de tecnologia do mundo se tornaram figuras frequentes em podcasts e programas favoráveis a eles. Algumas companhias, inclusive, passaram a contar com seus próprios blogs e canais, como forma de passar uma imagem positiva.

Essa tendência foi notada pelo jornal inglês The Guardian em um artigo publicado no sábado (29/11). “Chefes das maiores empresas de tecnologia, incluindo Mark Zuckerberg, Elon Musk, Sam Altman, Satya Nadella e outros, participaram de entrevistas longas e confortáveis nos últimos meses”, observa o repórter Nick Robins-Early.

Essas participações geralmente rendem manchetes que destacam o caráter disruptivo da atual onda de inteligência artificial. Satya Nadella, CEO da Microsoft, fez sua previsão de que agentes de IA vão substituir o SaaS em uma entrevista para o BG2 Pod.

O BG2 Pod é apresentado por dois investidores de venture capital. Brad Gerstner é CEO e fundador da Altimeter Capital, uma das investidoras da OpenAI e acionista de Meta e Nvidia, enquanto Bill Gurley é parceiro da Benchmark, que financia startups fundadas por ex-executivos da OpenAI.

E por falar em OpenAI, o CEO Sam Altman, também deu seu palpite de que a geração Z é privilegiada por viver a era da IA no podcast Huge If True, que se define como “um programa otimista sobre ciência e tecnologia” e “um antídoto contra a tristeza e o pessimismo”.

Big techs apostam em seus próprios blogs e revistas

Em alguns casos, as big techs e os investidores estão cortando os intermediários. A Andreessen Horowitz, uma das maiores companhias de capital de risco do Vale do Silício, lançou seu blog no Substack, em que se apresenta como uma “voz independente” construindo um relacionamento direto com o público.

A Palantir, empresa de tecnologia que desenvolve soluções de segurança, fundou uma revista chamada Republic. Segundo o Guardian, imita o estilo de publicações acadêmicas como a Foreign Affairs.

“Muitas pessoas que não deveriam ter uma plataforma têm. E muitas que deveriam, não têm”, diz um editorial assinado por executivos da companhia. Entre os exemplos de conteúdo da Republic, estão artigos contra leis de copyright e a favor da cooperação com as forças militares.

Como nota o Guardian, essas iniciativas ecoam um sentimento entre as empresas de tecnologia: revistas e sites especializados têm sido cada vez mais duros e críticos em suas coberturas do setor.

E, claro, não dá para não falar de Elon Musk, que comprou o Twitter, que passou a se chamar X. Ela permanece aberta a qualquer usuário, mas há alguns episódios sintomáticos: a IA Grok, que funciona de forma integrada à rede social, considera que seu dono tem a inteligência de Leonardo da Vinci e o condicionamento físico de LeBron James.

Americanos reprovam big techs, CEOs e IA

Enquanto isso, pesquisas mostram que o público dos Estados Unidos tem visões majoritariamente negativas sobre empresas de tecnologia, redes sociais e inteligência artificial.

De acordo com dados do Pew Research Center, 78% dos americanos acreditam que as companhias de mídia social têm mais poder e influência na política do que deveriam, e 64% acreditam que as plataformas tiveram um impacto negativo no país.

O pessimismo volta a aparecer quando o assunto é a IA. Entre os americanos, 53% acreditam que essa tecnologia vai prejudicar a criatividade. A visão também é desfavorável em relação a relacionamentos, decisões difíceis e resolução de problemas — neste último quesito, há algum otimismo, com 29% apontando que a IA vai melhorar essa habilidade.

O Tech Oversight Project, por sua vez, revela que os CEOs das big techs são pessoalmente reprovados pela população. O pior caso é de Mark Zuckerberg: 74% dos entrevistados têm uma avaliação negativa sobre ele, 59 pontos percentuais a mais do que a aprovação.

E mesmo em tempos de polarização política, a diferença entre as opiniões de eleitores democratas e republicanos não é tão grande — apesar de os partidários de Donald Trump serem menos reticentes em relação à tecnologia, também há grande rejeição entre esse grupo.

Estratégia nem sempre dá certo

Esses números dão algum contexto para as iniciativas de criar canais de comunicação e conversar com entrevistadores que não fazem perguntas duras.

Alex Karp, CEO da Palantir, deu recentemente uma entrevista a um podcast em que falou sobre sua cachorrinha de estimação de infância e respondeu a perguntas como “Se você fosse um cupcake, qual cupcake seria?”. Enquanto isso, não houve nenhum questionamento sobre polêmicas de privacidade e direitos humanos em que a startup esteve envolvida.

Mas mesmo essas situações podem ter o resultado oposto ao esperado. Em alguns casos, os conteúdos atraem comentários que mostram a insatisfação do público.

Na entrevista de Altman ao Huge If True, usuários fizeram piada sobre a falta de conteúdo da conversa. “Agora eu entendo por que o ChatGPT é assim. Esse cara consegue falar por horas sem responder a nenhuma pergunta”, diz um espectador.

Outro é mais crítico e afirma que é “maluquice” dizer que um recém-formado de 22 anos é sortudo por viver a era da IA, considerando que a tecnologia está destruindo empregos de nível júnior.

Recentemente, Adam Mosseri, CEO do Instagram, participou de um vídeo do canal Track Star. A página faz um quiz de adivinhar músicas com celebridades e pessoas comuns, misturando game show e entrevista.

A repercussão no Instagram foi negativa: usuários aproveitaram o espaço para criticar mudanças na plataforma, propagandas de golpes, contas banidas sem motivo e escolhas para supostamente viciar usuários.

Nem o próprio Track Star foi poupado. “Honestamente, essa conta era mais divertida quando eram pessoas aleatórias na rua tentando adivinhar as músicas”, diz o comentário mais curtido do vídeo.

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